It takes a great deal of History to produce a little History

Wednesday, March 02, 2011

STACIO SACRA. Uma povoação do Algarve Romano

Este post integra o meu estudo sobre Marim Romano (apresentado no post "Marim Romano. Um Novo Resumo" (Ver os mapas aí publicados e as fontes bibliográficas aqui referidas).
 

Na descrição da orla costeira ocidental da Spania, a Cosmografia do Anónimo de Ravena (ver o post A Cosmografia do Anónimo de Ravenna) coloca a civitas Stacio Sacra no Algarve, entre Balsa e Ossonoba[1].
Deve notar-se que esta fonte designa como civitas qualquer povoação, independentemente do seu estatuto ou importância.
Estácio da Veiga localizou-a em Marim[2], tendo tido diversos seguidores.
Faço em seguida uma resenha sistemática das ocorrências e significados de ambos os termos na toponímia e literatura corográfica romanas e dos seus possíveis sentidos no Ravennate

Statio
O corónimo statio surge apenas duas vezes no Ravennate:
Stacio Sacra, já referida.
Statio Deventia, Derventia ou Deventiasteno, na Britannia[3]. Considerada como civitas ou castra, a sua localização é duvidosa, correspondendo possivelmente ao forte romano de Nanstallon, na Cornualha[4], mas com outras hipóteses, uma em Denbury (Devenibyr)[5] e outra em Totness, no Devonshire[6].
No repertório do Barrington Atlas [BA] – que abrange 24 293 topónimos localizados do mundo greco-romano – o termo surge apenas cinco vezes, sempre em estações viárias, quatro das quais em vias alpinas da Raetia e Noricum[7].

Statio
é considerado um termo relativamente tardio [R. Chevalier refere o seu sentido de residência, posto ou estação viária, em relação com a terminologia militar[8]], com seis significados distintos [GINOUVÈS (1998) para os cinco primeiros[9]]:
1. Aquartelamento, sinónimo de stativa. Forte militar onde habita uma guarnição. [Em Suetónio surge a forma verbal statione[s] militum (Tiberius, 24, 37), referida à disposição de guarnições armadas em determinados locais]. O verbo substantivou-se em statio (o lugar da guarnição) e stationarius, (soldado da guarda, ou de uma guarnição).
2. Estação viária de posta (cursus publicus) onde existe um albergue de pernoita (sinónimo de angaria ou mansio). Neste caso e no seguinte, o termo associa-se à presença de uma guarda militar de carácter policial.
3. Casa ou posto da guarda num palácio. Este significado não forma topónimos.
4. Baía marítima natural. O termo statio não produz corónimos conhecidos, sendo estes acidentes geográficos designados por sinus, de que há registo de 108 casos no BA.
5. Posto ou delegação de serviço administrativo Imperial (statio annonae, statio municiporum). Pode designar assim um posto do fisco imperial, nomeadamente do portorium ou da annona: o primeiro num porto de navegação, fronteira municipal ou provincial ou ainda ponto de portagem viária; o segundo num lugar de concentração de impostos em espécie. Van Berchen[10] refere a mansio de Pizos, na Trácia, fundada por Séptimo Severo em 202, para a recolha da annona. Superintendida por curiais locais, nela havia um destacamento militar de stationarii.
6. Porto de etapa marítima Lugar onde os navios permanecem um certo tempo, por oposição a portus, sítio onde invernam. Esta definição surge apenas em um autor de finais do séc. IV [M. SERVIUS HONORATUS, Ad Aeneidam, II, 23]: "Statio est ubi ad tempus stant navis, portus ubi hiemant"[11]: Statio é onde os navios estão temporariamente (porto-de-escala), portus é onde invernam (porto-de-abrigo)].

As acepções 5 e 6 também não formam corónimos conhecidos. Embora uma estação do cursus publicus possa ser marítima e as stationes portorii se localizem frequentemente em portos de navegação, não há exemplo conhecido de um porto se designar por statio, sendo pelo contrário muito frequente o termo portus na constituição de topónimos, com 44 ocorrências registadas no BA.
O caso da statio Deventia corresponderá ao primeiro significado. As stationes do BA corresponderão ao segundo.
Por exclusão de partes, a Stacio Sacra corresponderá também ao 2º significado: um lugar secundário associado à função viária, um posto com uma guarnição, sem o estatuto das mansiones dos Itinerários de Antonino.

Sacra
A designação sacra e derivados é igualmente rara no Ravennate, surgindo apenas três vezes nesta obra, que pretende enumerar toda a toponímia do mundo conhecido da época:
Stacio Sacra, no Algarve, de que não há outra notícia.
Issa Sacra, ilha da Dalmácia [RAV 101.3], sobre a qual não se dispõe de mais informação.
Sacraria [RAV 129.54], Sacria [RAV 84.5], Sacrata [RAV 68.35; 117.35] (três ortografias para o mesmo local): ad sacraria.
O termo surge, nos casos identificados, com os seus três significados mais usuais:
• Um lugar sagrado, isto é, dedicada a uma divindade ou reservada como território funerário (Issa Sacra, na segunda acepção como a Insula Sacra entre Portus e Ostia, na foz do Tibre).
• Uma estação viária de peregrinação nas proximidades de um santuário importante (ad sacraria)
• Um recinto-santuário onde abundam sacrae, isto é, pequenas capelas, oratórios ou altares dedicados a uma ou mais divindades (Sacraria, Sacria, Sacrata)

Anacronismo paleocristão

Demonstra-se em seguida que a atribuição de um sentido paleocristão ao topónimo é virtualmente impossível, por anacronismo antecipatório.
De facto, a identificação do templo e necrópole de Marim com a Stacio Sacra (paleocristã) baseia-se nas três teses apresentadas e rebatidas na tabela seguinte:

Tese
Crítica
A Stacio Sacra do Ravennate diria respeito a um lu­gar de culto cris­tão entre Balsa e Ossonoba.
A toponímia paleocristã – que só se começa a divulgar a partir do séc. VII – está ausente no Ravennate, com uma única excepção, que é Christopolis, referida como sendo o novo nome de Neapolis (hoje Kavála, na Grécia, prov. Macedónia).
A renomeação é apenas de finais do séc. VI ou inícios do séc. VII, após a destruição da cidade vizinha de Philippi (sede da 1ª igreja cristã na Europa fundada por Paulo c. 49-50 e importante centro cristão) por um terramoto e transferência da sua sede episcopal para Neapolis. 
Será assim quase contemporânea do Ravennate, datado por Schnetz entre 638 e 678. 
É, tanto quanto se sabe, o primeiro topónimo cristão registado nas fontes escritas.

Abundam em contrapartida os topónimos "pagãos". Indicam-se os principais e o respectivo nº de ocorrências: Afrodite (5), Apolo (14), Asclépio (1), Diana (5), Dioníso (3), Hércules (18), Hades (1), Jano (2), Isis (2), Júpiter (1), Minerva (4), Neptuno (1), Príapo (1), Saturno (2), Vénus (2).

É portanto anacrónica a atribuição de um significado cristão à toponímia do Ravennate, quer pela data em que foi escrito como por a esmagadora maioria dos topónimos serem de fontes muito anteriores.
A necrópole e o lugar situar-se-iam na vizi­nhan­ça pró­xi­ma da via roma­na de Balsa a Os­so­no­ba, sendo por­tan­to uma statio dessa via.
A teoria da localização da necrópole/igreja de Marim junto à via romana entre Balsa e Ossonoba, factor justificativo para uma statio viária não tem fundamento. 
De facto, e seguindo o cânone de localização das villae rústicas[12], Marim romano surge marcadamente afastado do trajecto da via principal da época, ligado a ela por diverticula bem identificados [Ver tabelas de distâncias viária, mais adiante]. 
A estrada actual, anacronicamente identificada com a via romana, só foi aberta após a construção da ponte de Marim pelo bispo Francisco Gomes do Avelar, em 1817[13].
Esta nova estrada, antepassada da EN 125, atravessa o páleo-estuário do Tronco no sítio de Alfandanga, usando a Ponte da Tabueira, igualmente moderna [posterior a 1800]. 
Na época romana este estuário estava ainda activo e era intransponível por estrada até a jusante de Areias, segundo indica claramente a topografia local e a presença da figlina de Alfanxia e do concheiro romano de Murtais.
Ainda na Idade Média islâmica a zona de Alfandanga estava alagada, como indica a sua raiz etimológica árabe al-handaq, com o significado de lodo ou água estagnada (donde deriva a palavra espanhola fango)[14].
Marim é uma designação medieval que terá encoberto o topónimo anterior
A manutenção dos topónimos tardios Marim e Sambada (Milreu) revelam a sua manutenção como núcleos residenciais tardios de possessores abastados, descartando a sua especialização religiosa tardo-romana:

Marim
Marim é já é assim designado no foral de Faro, de D. Afonso III, datado de 1266: "retineo m(ih)i ... om(n)es ficulneas d(e) Mari(m)"[15], revelando tratar-se de um topónimo de origem moçárabe ou anterior. 
Era então uma propriedade rural importante – produtora de figos – sendo esta situação e o nome na sua forma moçárabe seguramente anteriores à conquista portuguesa.
Marim aparece também designado como Vila Marim (Villamarín, em espanhol) no mapa e memória descritiva do Atlas de Pedro Teixeira[16], podendo revelar a memória toponímica da villa romana, situação de que se conhecem vários exemplos no Algarve.
De facto, Marim é a evolução de um genitivo de posse do antropónimo MARINU, nome de possessor latino. O topónimo original seria *Villa Marini, forma relativamente tardia que, sem informação complementar, pode ser datado entre os sécs. IV e VII[17].

Sambada
Na vizinhança das ruínas de Milreu sobrevive o microtopónimo "Sambada", como corónimo de lugar e designação de propriedade (Monte da Sambada), hoje recoberto pelo novo topónimo "Coiro da Burra".
Trata-se de uma variante privativa do grego, em uso na Gália e na Germânia, do cogn. Sabbatus de origem hebraica e retirado do calendário cristão.[18]
Sambada derivará assim de *Villa Sambata, correspondendo a um dos possessores mais tardios da villa de Milreu. 
Este último topónimo é posterior, de etimologia germânica, mas desconhece-se a época da sua formação. A sua primeira atestação data de 1518, na forma "quintã" de Milreu[19].

Pode-se assim descartar definitivamente a hipótese de identificação de Marim (ou de Milreu) com a Stacio Sacra, na acepção paleocristã defendida por Estácio da Veiga e Dennis Graen.

Stacio Sacra
A Stacio Sacra no Ravennate deve corresponder, por conseguinte, a um importante santuário pré-cristão, em que a relevância corográfica pode ser dupla: religiosa, pela importância do culto no local, e viária, pela sua posição notável na rede de transportes: entroncamento, vau importante ou término.
O uso de statio como designado toponímico explícito sugere que o povoado era mais que um ponto de acesso ao santuário, pois carácter de statio prevalece sobre o de sacra, simples designação toponímica (caso contrário o topónimo seria ad Sacrum ou algo semelhante). 
A forma sugere também que o santuário se situava afastado do povoado (senão o topónimo seria provavelmente apenas Sacrum ou uma sua variante ou teria apenas a designação da dedicação religiosa, como sucede na grande maioria dos sítios religiosos).

Localização

Ao analisar as hipóteses da Stacio Sacra se situar efectivamente entre Ossonoba e Balsa, verifica-se que Marim e Moncarapacho são as únicas duas aglomerações secundárias romanas existentes entre Ossonoba e Balsa e que os principais santuários são o Monte Figo/Cerro da Cabeça e a Fonte Santa, considerando-se este último como um santuário médico suburbano de Balsa.

1. Marim

Segundo a presente reconstituição do sítio romano de Marim e das suas ligações viárias, o seu porto surge directamente ligado a Moncarapacho, sítio adiante abordado como localização mais provável da Stacio Sacra.
Conjecturalmente, Marim poderia ter sido então um lugar de devoção secundária do referido santuário e interface portuário de um eventual trânsito de peregrinos transportados por via marítima.
A sua designação como Stacio Sacra passaria assim a ter sentido coronímico e lógica histórico-geográfica, como porto-de-escala (acepção nº 6 de statio, acima descrita) associado a um importante santuário marítimo regional.
Para aceitar esta conjectura, deve igualmente aceitar-se que a ausência do termo statio com sentido portuário nas corografias e listas toponímicas tardias se deverá apenas a insuficiências documentais.
A Stacio Sacra do Ravennate seria então a sua única abonação literária, correspondendo a uma designação de meados do séc. IV, cronologicamente bem ajustada à última fase florescente da estação portuária e fiscal de Marim.
Esta possibilidade não é contraditória com a sobrevivência de Marim como antropotónimo de possessor, se se tiver em conta que este se pode ter formado apenas mais tarde, já após o final do domínio romano, entre os sécs. V e VII (mais especificamente no séc. V, época de ocupação paleocristã da antiga necrópole romana).
Embora consideravelmente rebuscada e forçada, a hipótese da Stacio Sacra se situar em Marim não se deve assim excluir definitivamente.

2. Moncarapacho

Sobre a alternativa de Moncarapacho, o seu conhecimento arqueológico é muito limitado mas o que se sabe é significativo, com a maior densidade de estações romanas da região e uma importante necrópole tardia.
O post "Arqueologia do Concelho de Olhão" apresenta um catálogo das estações arqueológicas do concelho de Olhão, com destaque para as da freguesia de Moncarapacho e identificadas por J. Fernandes Mascarenhas. Na actual área urbana e periferia da povoação contam-se 18 estações romanas e tardo-antigas.

Centro viário

A reconstituição da rede viária e da corografia local – apresentada no texto – revela também uma disposição dos arruamentos integrada na centuriação de Balsa e o centro da povoação como um nó viário de primeira grandeza, que unia três mansiones do "Itinerário de Antonino" de Esuri Pace lulia: Ossonoba, Balsa e Arannis[20], esta última identificada em Santa Bárbara de Padrões (Castro Verde, Beja). 
Situa-se ainda na vizinhança imediata dos santuários do Monte Figo e do Cerro da Cabeça e a eles ligado por vias romanas identificadas pelos seus vestígios.
De acordo com o estudo, a rede viária principal entre Ossonoba e Balsa estrutura-se como uma junção topologicamente triangular, a cujos vértices se ligam os eixos das três direcções fundamentais:
§ Para ocidente, o vértice de Ossonoba corresponde a Quatrim, que se liga também ao porto de Marim. Entre Ossonoba e Quatrim a via corria por S. Luís, S. Cristóvão e João de Ourém. A ligação desta via à villa de Marim fazia-se na Casinha da Gala, por Piares. 
§ Para oriente, o vértice de Balsa corresponde ao antigo santuário da Fonte Santa, no actual lugar do Livramento. Entre a cidade e o santuário a via passava a norte da colina do Pinheiro, por um caminho onde se identificaram indícios de calçada.
§ Para norte, o vértice de Arannis corresponde a Moncarapacho. A via para S. Bárbara de Padrões tem vestígios importantes em Vale da Serra e Ribeiro do Lagar, passando por Porto Carvalhoso, Fronteira, Mealha, Monte da Estrada, S. Pedro de Solis e Caiada, onde 
também há vestígios.
A ligação mais litoral entre os vértices de Quatrim e da Fonte Santa fazia-se por uma das Canadas de Bias, passando pela Ribeira das Fontes Santas e Fuzeta, devendo cruzar o então importante esteiro do Tronco. Entre Bias e Fuzeta há notícia de vestígios de calçada. O sítio das Fontes Santas é o lugar de achamento do termo augustal e miliário de Bias, exactamente a 10 m.p. (milia passuum) de Ossonoba, o que confere com a sua inscrição.
Nesta reconstituição – feita em grande parte sobre troços de caminhos ainda existentes em 1950 – a distância entre Ossonoba e Balsa é de 16 m.p. romanas (tanto por Moncarapacho como por Bias) e a distância de Ossonoba a S. Bárbara de Padrões (Arannis), por Moncarapacho, é de 60 m.p. Estes valores correspondem exactamente aos indicados nas etapas respectivas do Itinerário de Antonino item de Esuri Pace lulia acima referido. 

A tabela seguinte indica as distâncias empíricas dos principais troços viários reconstituídos. Ela mostra haver uma concordância exacta das medições dos trajectos identificados (erro <½ m.p.), tanto com o valor indicado no termo augustal de Bias como com as distâncias das etapas do Itinerário de Antonino XXI, de Balsa a Ossonoba e de Ossonoba a Arannis

Trajecto
Distância*
km
m.p.**
De Ossonoba ao termo municipal oriental
01
Ossonoba – Quatrim poente
Por S. Cristóvão e João de Ourém
11.8
8.0
02
Quatrim poente – Bias (Rib. Fontes Santas)
Canada de Bias
3.0
2.0
03
Ossonoba – Bias (Rib. Fontes Santas)
Por Quatrim poente e Canada de Bias (01+02)
14.8
10.0

Termo e miliário de Bias


10
De Ossonoba a Arannis
04
Quatrim poente – Moncarapacho

4.5
3.0
05
Ossonoba – Moncarapacho
Por Quatrim (01+04)
16.3
11.0
06
Ossonoba-Santa Bárbara de Padrões
Por Moncarapacho (05), Calçadas de Vale da Serra e Rib. dos Lagares, Porto Carvalhoso, Fronteira, Mealha, Monte da Estrada, S. Pedro de Solis, Caiada, Sete
88.9
60.1

Ossonoba Aranni (3ª etapa do It. Antonino XXI)


60
De Ossonoba a Balsa
07
Bias (Rib. Fontes Santas) – Fonte Santa
Por Fuseta e Esteiro do Tronco
6.93
4.7
08
Moncarapacho – Gião (Marco?)

0.60
0.3
09
Gião (Marco?) – Fonte Santa

5.09
3.5
10
Fonte Santa – Balsa

2.11
1.4
11
Ossonoba Balsa (com passagem fluvial pelo Esteiro do Tronco)
Por Bias (Rib. Fontes Santas) e Fonte Santa (03+07+10)
23.8
16.1
12
Ossonoba Balsa (trajecto seco por Moncarapacho)
Por Moncarapacho, Gião e Fonte Santa (05+08+09+10)
24.1
16.3

Balsa – Ossonoba (2ª etapa do It. Antonino XXI)


16
Acessos de Balsa
13
Balsa – Bias (Rib. Fontes Santas)
Por Fonte Santa (10+07)
9.04
6.1
14
Balsa – Gião (top. "Marco" = 5 m.p. desde Balsa?)
Por Fonte Santa (10+09)
7.20
4.9
15
Balsa – Moncarapacho
Por Fonte Santa e Gião (14+08)
7.80
5.2
Acessos de Marim
16
Marim – Casinha da Gala
Acesso poente à via de Ossonoba
1.68
1.1
17
Marim – Quatrim nascente
Acesso norte à via de Ossonoba
1.55
1.0
18
Marim – Moncarapacho
Por Quatrim nascente (17)
5.49
3.7
  * Distâncias empíricas medidas sobre cartografia georreferenciada (erro máximo estimado inferior a 100 m)
** milia passuum. Milha romana de 1479 m

Moncarapacho define-se assim como o lugar apropriado para uma statio viária (posto policial e fiscal mantido por militares e frequentemente associado a uma mutatio do cursus publicus) da via mais importante da região, num povoado de serviço aos santuários mais importantes dos aros de Ossonoba e de Balsa.
Destaca-se o Monte Figo, justificando-se o seu carácter de principal santuário marítimo regional, concretamente como farol diurno (e então talvez também nocturno, o que justificaria em parte a sua via romana calçada) e oráculo meteorológico da navegação costeira entre as barras do Arade e de Huelva, funções que manteve até há poucos anos. 
Não sobrevivem vestígios dos cultos na época romana mas há indícios significativos de rituais medievais pouco ortodoxos e de costumes etnográficos locais, cujo calendário cíclico de celebração e formalismo configuram uma origem religiosa muito anterior ao Cristianismo[21].
A identificação de Moncarapacho com a Stacio Sacra revela-se deste modo quase evidente, sobretudo após a desqualificação de Marim. 

3. A tese do Promontório Sacro

Uma corrente historiográfica iniciada por Leite de Vasconcelos considera que a localização da Stacio Sacra entre Ossonoba e Balsa é uma interpolação do Ravennate, devendo antes referir-se a uma povoação no Promunturium Sacro, famoso santuário antigo e hoje promontório de Sagres[22]. V. Mantas desenvolve esta ideia, considerando que a Stacio seria um porto nos arredores do santuário[23].
Esta hipótese baseia-se na consonância Sacra=Sacro no mesmo contexto geográfico regional. Não tem porém  qualquer fundamentação documental, uma vez que se inspira no segmento ibérico da Tabula Peutingeriana, integralmente inventado por Konrad Miller em 1887 em substituição do original desconhecido que se perdeu!
Embora a possibilidade de localização da Stacio Sacra no Promontório Sacro não se possa excluir numa base estritamente epistemológica, ela torna-se rebuscada e inútil ao ignorar as fortes evidências geográficas e religiosas acima descritas, substituindo-as por um desnecessário e incomprovável erro da fonte!


[1] RAV 79.31.
[2] VEIGA (1887-91): 390, tomo 2.
[3] RAV 105.51.
[4] URL: , acedido em 12-10-2009.
[5] URL: , acedido em 12-10-2009.
[6] URL: , acedido em 12-10-2009.
[7] BA. Topónimos seguidos da região do Império, nº do mapa e quadrícula:  Maiensis Statio, ITL, 19 D3; Statio Bilachiniensis, ITL, 19 F3; 20 A3; Statio Caesariana, ITL, 45 C4; Statio Plorucensis, ITL, 19 F3; Statio Timaviensis ITL, 19 F3.
[8] CHEVALIER (1997): 282, citando W.G. Pflaum, "Essai sur le cursus publicus sous le Haut-Empire romain", Mém. Acad. Inscriptions, Paris 1940; pp. 189-391.
[9] : pp. 22, 83, 157, 193 e 188.
[10] VAN BERCHEN (1937):24-25.
[11] Cit. em SÁINZ (1998), p. 67-8 e n. 33.
[12] Columela, Rei Rusticae, I, 6-7.
[13] OLIVEIRA (1902): 268.
[14] Informação de Abdallah Kawli.
[15] AFONSO III (1266): 239.
[16] TEXEIRA (1634): 340.
[17] FERNANDES (1999): 253.
[18] DC 136 e ICG apud NP § 367; Sambatius Ursus
[19] Agradece-se a Maria Alice Fernandes a informação linguística e bibliográfica respeitante a Sambada e Milreu.
[20] IA 425.6-426.3. Identificam-se os Itinerários de Antonino pelos "números de Wesseling", de uso universal. No âmbito ibérico, este itinerário específico corresponde ao nº XXI da classificação de Roldán Hervaz [ROLDÁN (1975): 35-6, 77-8], seguida pela grande maioria dos investigadores.
[21] SARRÃO (1607): 164,167-8; MASCARENHAS (1969); NOBRE (1974): 15-24; FRAGA (2002): 47-49, 87-96; FRAGA (2006d)
[22] VASCONCELOS (1905): 198-9
[23] MANTAS (1997b): 317 n. 4


História resumida da rede viária entre BALSA e OSSONOBA com destaque para a Época Romana

Reconstituição retrospectiva em 12 slides.













Sobre a estrada romana de Ossonoba a Arannis, por Moncarapacho  ver também o post
The Roman Road of  Vale da Serra (Moncarapacho).

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