It takes a great deal of History to produce a little History

Sunday, January 15, 2017

A propósito de um post do Museu Casa da Moeda no facebook


O Museu Casa da Moeda publicou na sua página no Facebook uma foto e um comentário relativamente às primeiras moedas cunhadas no território actualmente português, que podem ser vistos aqui.
 
“Por influência das moedas romanas, vários núcleos de povoamento indígenas da II Idade do Ferro [do actual território português], com forte tradição mediterrânea, bateram moedas, de diversas denominações e valores, entre os séculos II e I a.C.

Exceptuando a datação, a informação acima citada é grosseiramente errada! 
 
Ela corresponde a uma visão numismática ultrapassada já há décadas, que desconhece e não compreende nem a existência de moeda romana provincial e local nem a existência de sistemas monetários peregrinos (não romanos) num grande número de províncias e comunidades locais do Império Romano durante um largo período da sua história. 
 
Nesta visão estreita e antiquária da moeda romana existiriam apenas as emissões do Estado Central, produzida nas capitais imperiais, nomeadamente em Roma.
 
Gerou-se assim a falsa ideia de uma moeda "ibérica" ou indígena, pré-romana, semelhante às verdadeiras amoedações ibéricas pré-romanas do Nordeste peninsular ou às moedas célticas da Gália e da Bretanha independentes.
 
Este erro permanece vivo junto dos numismatas amadores portugueses, que insistem em designar estas moedas como “ibéricas”!
 
Além disso, a informação do Museu Casa da Moeda reflecte uma conhecida dificuldade avuncular da historiografia portuguesa em compreender o desfasamento temporal muito considerável da conquista romana entre o sul e o norte do actual território nacional.
 
Para essa historiografia, conceptualmente coimbrã e nortenha, a conquista só se realiza a partir de César ou de Augusto. Até então, todo o mítico território português seria habitado por valentes lusitanos independentes, que resistem aos romanos do Minho ao Algarve!
 
Esta visão romântica e nacionalista, sempre vivaz, teve uma actualização posterior e passou a falar-se nos meios académicos em comunidades indígenas independentes da 2ª Idade do Ferro, que interagiam com os romanos comercial e militarmente, como inimigos ou mercenários, mas sem se corrigir o grosseiro anacronismo subjacente, geográfico e político.
 
Porém a realidade dos factos é bem diferente: 
  • O litoral entre o Guadiana e o Sado terá estado já sob domínio romano desde a submissão de Gades (206 a.n.E.) e o actual Baixo-Alentejo desde o final das Guerras Turdetanas (197-187 a.n.E.);
  • A linha entre o estuário do Sado e Mérida será fronteira estável da Hispânia Ulterior desde o final das Guerras Lusitanas (156-138 a.n.E.) e a linha do Tejo em finais da Guerra Sertoriana (80-71 a.n.E.);
  • A conquista entre Tejo e Douro, incluindo parte do Baixo-Minho, ocorrerá no tempo de César (entre 61 e 44 a.n.E.) e extremo norte e a zona transmontana só serão incorporados por Octávio/Augusto na preparação das Guerras Cantábricas (29-26 a.n.E.).
 
No mapa seguinte sobrepõem-se as fronteiras aproximadas e datadas da província romana da Hispânia Ulterior (ou do domínio romano anterior à criação das províncias hispânicas em 197 a.n.E.) com as localizações das cecas monetárias do actual território português. 
 
A sua leitura permite perceber que todos as cecas correspondem a zonas de domínio romano mais antigo, a grande maioria delas produzindo moeda já muitas décadas (ou mais de um século) depois da conquista romana.
 
 
Verifica-se que todas as moedas do actual território português na Antiguidade são emitidas em nome de comunidades provinciais romanas da Hispânia Ulterior. 
Todas têm um estatuto peregrino (isto é, juridicamente não romano), com excepção de PAX IULIA e EBORA, que são hispano-romanas. 
 
Não existe qualquer moeda pré-romana (indígena da Idade do Ferro) em nenhuma parte do território actualmente português! 
 
A sua emissão nada tem a ver com a "forte tradição mediterrânica" dos núcleos indígenas mas sim com o facto das comunidades étnico-políticas do sul se terem integrado muito precocemente no Império Romano e nas suas políticas monetárias provinciais da Hispânia Ulterior. 
 
Estas políticas, como se sabe, recorreram largamente a emissões de moeda local desde o final das Guerras Celtibéricas (133 antes da nossa Era: a.n.E.) até à reforma monetária e provincial de Augusto (c. 15 a.n.E.). 
 
Assim, apenas MVRTILIS (e quiçá CILPES) na sua primeira fase emite moeda nas últimas décadas do séc. II a.n.E. 
 
Estas e todas as outras emitem moeda no séc. I a.n.E., sobretudo após o final da Guerra Sertoriana (71 a.n.E.).
 
Após a reforma provincial e monetária de Augusto extinguem-se as emissões peregrinas em cobre. Daí em diante só há emissões provinciais locais "hispano-romanas" de comunidades cívicas privilegiadas (caso singular de EBORA em território português).

As cidades portuárias do Algarve continuam porém a produzir abundantes e variadas emissões de moeda de chumbo, na continuidade dos tipos marítimos de cobre previamente existentes.

Em termos históricos gerais, as moedas peregrinas do Mundo Romano tiveram um enorme destaque em quase todas as províncias do Império até ao tempo de Augusto.

Daí em diante continuam a existir em grande abundância como moedas locais e provinciais das províncias do Oriente romano, até ao fim do séc. III da nossa Era. 

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Ironicamente, a foto que foi escolhida no post do Museu não podia ser menos apropriada para ilustrar a tese do indigenismo pré-romano: mostra o reverso de uma moeda provincial romana, de LIBERALITAS IVLIA EBORA (civitas privilegiada de estatuto municipal romano) emitida no tempo de Augusto após 12 a.n.E. e tendo no lado anverso a cabeça deste imperador! 

A figura mostra vários instrumentos de culto próprios do Pontífice Máximo de Roma. 

Ela assinala assim a ascensão a esse cargo por Augusto em 12 a.n.E. ou comemora um aniversário posterior desse evento. 

É uma moeda divisional do denário romano, em bronze, com o valor de um dupôndio (RPC 50, idem Ripollès 2010). 

Quer do ponto de vista institucional e político, quer do ponto de vista da tipologia numismática e do padrão monetário, trata-se portanto de uma moeda 100% romana! 


  

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É desastroso e lamentável que erros e preconceitos antigos continuem a ser reproduzidos e veiculados em meios de divulgação destinados ao público leigo (como é o caso do Facebook em geral e da página Portugal Romano (https://www.facebook.com/portugal.r...) em particular), sobretudo por parte de instituições com grandes responsabilidades no estudo e divulgação da história numismática e monetária, como é o caso do Museu Casa da Moeda. 

Relativamente à moeda local do actual território português na Antiguidade romana sugere-se o texto muito introdutório seguinte (em inglês): https://www.facebook.com/notes/luis-fraga-da-silva/nummi-in-ultimo-occidentis/1537591852933232

Sugere-se igualmente o vídeo mais desenvolvido sobre o mesmo tema: https://www.youtube.com/watch?v=tUX9nNJqTv8

Friday, December 23, 2016

A nomenclature of Roman road systems from a geographer's perspective


A road system may be defined as a structural transportation system with dedicated functional purposes, based on terrestrial and fluvial infrastructures and differentiated stage settlements. 
 
Road systems may be either organic or abstract or have an institutional foundation and management. In this last case they may be staffed with administration, control and technical transportation, maintenance and stationing services.
 
Distinct road systems will share extant network infrastructure where they overlap spatially.
In the Roman Empire, during its territorial mature phase (2-5 AD), several types of road systems may be posited, grouped below in a descendant hierarchical order according to a ranking of factor:
 

IMPERIAL POLITICS

 
1. Imperial geostrategic systems
  • Radial: connecting the centers of Imperial power with its major military resources and territorial capitals
  • Peripheral: connecting major military border defense systems (Limes)
  • Major military campaign road axis, connecting military resources between standing army bases and theaters of war
2. Imperial administrative super-provincial hierarchical networks
  • Connecting Praefectura capitals with Diocesis capitals
  • Connecting Diocesis capitals with Provincia capitals

IMPERIAL GEO-ECONOMY

 
3. State-directed trade systems
  • Annona militaris road system
  • Annona civilis road system
4. Long distance trade systems of provincial supply
 
5. External (foreign) trade road systems
 

PROVINCIAL ADMINISTRATION AND EXPLORATION

 
6. Provincial administrative hierarchical networks
  • Connecting provincial capitals with Conventus capitals (or cities with similar functions) and strategic ports
  • Connecting Conventus capital to Civitas capitals
7. Provincial administrative circular networks
  • Connecting Conventus capitals and other staging places of annual administrative tours by provincial officials
8. Provincial strategic resources systems
  • Organized riparia: fluvial transportation system, including riverine complementary roads
  • Connecting districts of State-appropriated strategic resources with a transshipment center or dentritic catchment zones with a transshipment axis
9. Inter-civitates polygon network. Provincial territory structuration
 

CIVIC PSEUDO-AUTONOMIC ADMINISTRATION AND LANDSCAPING

 
10. Civitas capital radial dendritic network
 
11. Sub-civitas networks
  • Vicus or secondary settlement radial dendritic network
  • Habitat polygonal connection network. Civic territory structuration

REGIONAL, EXTRA-CIVIC ECONOMIES AND LAND USES

 
12. Interregional communications axis
  • Transhumance system
  • Major landscape connection or interface road

LOCAL TOPOGRAPHIES

 
13. Micro-territorial structuration
  • Minor landscape connection or interface road
  • Elementary road axis topography: alternative, shortcut and junction
  • Elementary rural “capillary” topologies: catchment, mesh, etc.

Wednesday, July 06, 2016

HISPANIA PARS OCCIDENTALIS


A digital regional map of the Roman Empire

A chorographic and itinerary map of the Iberian West during the Roman Imperial period (1st – 5th century C.E.), detailing the zone of modern Portugal.

Essay of regional Historical Geography of the Roman Empire during its territorial phase, implemented by a model of digital layered cartography.

The video is based in a PowerPoint presentation and should be seen in HQ and full-screen. The original map is in PDF format.





Tuesday, September 22, 2015

Recursos do Império Romano e poder territorial

Nota sobre um modelo sistémico

A escassez das ciências sociais históricas nos currículos clássicos e (sobretudo) nas suas franjas tecno-patrimoniais conduz facilmente a visões simplórias (isto é, pouco ilustradas e auto-satisfeitas) na abordagem dos recursos periféricos do Império Romano.

Não há achado mais trivial que não se fale logo de "recursos económicos", que no essencial se resumem a produtos "comercializáveis", idealmente através de sistemas de comércio à distância, descritos geralmente por litanias enumerativas com colorações muito modernistas.

Na realidade, a questão dos recursos da periferia imperial romana nas escalas local ou regional obriga, na sua expressão mais sintética, a considerar um escalonamento hierárquico e um leque amplo de tipos de recursos, de naturezas distintas para além do estritamente económico.

Sem querer também ser simplório, vou procurar ser o mais simplista possível:


A verde os de carácter essencialmente autónomo, local e regional.
A vermelho os do âmbito do Estado central


1. Na sua base devem primeiro distinguir-se os recursos de subsistência das populações locais, que definem os limites da capacidade de carga demográfica e, por consequência a dimensão potencial do produto primário.

Neste cálculo conceptual deve ter-se em conta os altíssimos níveis de autoconsumo rural, assim como os baixos níveis de produtividade e a "bombagem" demográfica permanente do campo para a cidade, necessária à recomposição dos níveis de população urbana.

Neste escalão devem também incluir-se as regiões onde predominam as formações sociais e tipos de economia natural susceptíveis de produzir pessoas alienáveis como bens de uso (e de troca) no quadro da macroeconomia imperial.

É o caso das zonas produtoras de escravos, de soldados ou de certos tipos de trabalhadores especializados (como os mineiros, ou os professores/perceptores e outros profissionais liberais).

2. No escalão seguinte vêm então os célebres recursos de base estratégica, na acepção de J. P. Roth (Roth 2012) , produzidos localmente para serem encaminhados e apropriados por entidades imperiais metropolitanas ou do aparelho de Estado.

São os recursos que definem e caracterizam o carácter da economia de exploração imperialista propriamente dita: extractivos, agro-primários, etc.

3. No terceiro escalão estão os recursos organizacionais e de riqueza consolidada (isto é, a sua ordem de grandeza, independentemente das origens) que permitem a constituição e manutenção mais ou menos sustentável de um sistema de cidades ou rede urbana regional , caracterizada por centros nodais e linhas de comunicação.

 Incluem-se neste grupo as infra-estruturas físicas e edificadas, os subsistemas especializados, as organizações sociais e institucionais e os regimes financeiros e fiscais privilegiados no quadro imperial, que culminam no grau de autonomia e de poder jurisdicional local, na sua negociação permanente com as autoridades imperiais regionais e centrais.

4. No quarto escalão estão os recursos posicionais dos sítios, enquadrados nos recursos situacionais das respectivas regiões, definidos na esfera da circulação, nas acepções comuns destes termos em geografia humana e ciências geoestratégicas.

Os recursos situacionais definem as periferias em termos das redes geoeconómicas e geopolíticas de âmbito supra-regional ou global, mas também na escala mais restrita das redes provinciais polarizadas relativamente aos seus centros.

Os sítios respectivos são valorizados de acordo com os seus perfis de recursos ou valências funcionais, definidas nos contextos dessas redes.

Deles fazem parte os sistemas de comunicações e transportes de utilidade supra-local incluídos em rotas e eixos de valor estratégico, assim como os lugares especializados e dispositivos técnicos, logísticos e organizacionais necessários ao seu funcionamento e manutenção.

5. Finalmente, no quinto e último escalão que coroa este edifício conceptual, consideram-se os recursos de centralidade na pirâmide hierárquica político-militar imperial, que culminam na capital ou capitais da corte imperial e nas bases operacionais (de novo Roth 2012) das principais forças militares.

Num nível abaixo do anterior incluem os lugares centrais da hierarquia territorial da administração civil, definida por critérios institucionais e situacionais ou pela excepcionalidade política das enormes dimensões urbanas.


A questão dos recursos pode ter outras abordagens mais elaboradas, que os integram no quadro mais geral das estruturas romanas de poder territorial e que adicionam ao modelo hierárquico aqui proposto a complexidade das relações sistémicas entre cada nível e a especificidade de cada subsistema e cada entidade principal.

Estas visões sistémicas são mais rigorosas quando se limitam a quadros geo-históricos limitados, permitindo a sua representação através de diagramas com um número limitado e visualmente aceitável de graus de liberdade.

A figura seguinte mostra um exemplo em desenvolvimento, concebido para as províncias ocidentais não fronteiriças e não tribais, onde tenha sido implantado o sistema político das res publicae de modelo itálico, genericamente a partir de Augusto.

É um modelo simplificado da formação, distribuição e regulação territorial do poder e da riqueza no mundo romano, a partir de Augusto (27 a.n.E.).

Inclui as principais entidades, forças e relações definidas através das diferentes esferas conceptuais, subsistemas e escalões hierárquico-espaciais do universo imperialista romano, com destaque para as estruturas do poder local poliado e a sua articulação com o poder central.

Ensaio em desenvolvimento.







Bibliografia muito seleccionada

Christian Grateloup; Introduction à la géohistoire; Armand Colin; Paris 2015

David J. Mattingly; Imperialism, power and identity. Experiencing the Roman Empire; Princeton University Press; Princeton 2011

Jonathan P. Roth: The Logistics of the Roman Army
(264 BC - AD 235); Brill; Leiden 2012

Michael Rowlands et alii (eds.): Centre and periphery in the ancient world; Cambridge University Press; Cambridge 1987

Patrice Brun et alii (eds.): Frontières d’empire. Nature et signification des frontières romaines; Apraif; Nemours 1993

Paul Claval: Espace et Pouvoir; Presses Universitaires de France; Paris 1978

Peter F. Bang; The Roman Bazar. A comparative study of trade and markets in a tributary empire; Cambridge University Press; Cambridge 2008

Robin A. Butlin: “Historical geographies of power and control” & “Historical geographies of trade, transport and communications” in Historical Geography, trough the gates of space and time; Arnold, London 1993

Roger Brunet: L Déchiffrement du Monde. Théorie et pratique de la géographie; Belin; Paris 2001
Stéphane Rosière: Géographie politiqie & Géopolitique. Une grammaire de l’espace politique; Ellipses, 2e. ed.; Paris 2007

Walter Scheidel et alii (eds.): The Cambridge Economic History of the Greco-Roman World; Cambridge University Press; Cambridge 2013

Sunday, August 02, 2015

Nota sobre uma moeda rara de IPSES

IPSES é uma das cecas que emitiram moeda local durante a época romana no território do actual sul de Portugal. O mapa seguinte identifica essas cecas.



O topónimo IPSES (com esta grafia ou na grafia equivalente IPSIIS) é apenas conhecido nesta forma específica através da sua escassa evidência numismática. O nome poderá ser corroborado num documento de difícil interpretação datado do final do período visigótico (finais séc. VII),conhecido por "Divisio Wambae", que assinala IPSA como um dos limites da diocese episcopal de OXONOBA.

A proposta da sua localização em Alvor deve-se a Teresa Júdice Gamito, que efectuou uma exploração muito limitada do ópido de"Alvor Velho", sítio com ocupação desde a Idade do Ferro até à conquista portuguesa.



Foram então descobertos no local dois numismas da série II (ver adiante).

Desde então surgiram outros exemplares da moeda local, permanecendo a obra de Alberto Gomes de 1998 o catálogo mais completo dos tipos conhecidos até à data.

Muito mais recentemente tornou-se possível fazer um primeiro ensaio da geografia da dispersão das emissões de IPSES, através de uma série dos seus exemplares bem localizados. É o que mostra o mapa seguinte.



A concentração de achados na zona de Alvor corrobora a localização de IPSES e associa-se a assemblagens numismáticas em que predominam tipos de Balsa e Ossonoba, que hoje se podem considerar muito tardios (da época de Augusto a finais do séc. II da nossa Era).

A dualidade do povoamento de IPSES entre um ópido da Idade do Ferro/Romano republicano e um centro hipodâmico de traça romana imperial foi também proposta por Teresa Júdice Gamito, de acordo com a imagem seguinte.



Com base em elementos da autora tive oportunidade de fazer um estudo arqueotopográfico do local, integrado numa evolução regressiva da ocupação entre o séc. XVII e a Antiguidade.
A súmula resultante corresponde à proposta de forma e funcionalidade urbana expressas na figura seguinte.



Em boa hora o artista Jorge Vidal, de Portimão, teve já há anos a ideia de produzir uma reconstituição idealizada da ocupação humana do sítio de Alvor em várias épocas.
As figuras seguintes correspondem à fase do apogeu romano de IPSES, numa magnífica versão gráfica ainda em desenvolvimento.






As Amoedações de IPSES

O estado de conhecimento sobre as emissões de IPSES pode sintetizar-se no quadro seguinte, onde se definem, três séries de emissões. Nas séries II e III, em chumbo, distinguem-se diversos tipos de unidades e tipos específicos de divisores formais (assinalados com .f)



Estas três fases integram-se no quadro geral das emissões locais de tipologia "peregrina" do sul da Lusitânia, quadro esse muito resumido na figura seguinte. Não é possível nesta nota abordar sequer as numerosas e importantes questões nele e por ele levantadas.




A nova moeda

Note-se que a série III de IPSES era conhecida até aqui apenas a partir de desenhos esquemáticos do catálogo de Alberto Gomes.
Esta série é considerada a mais tardia, com uma paginação e composição semelhante às de OSSONOBA, BALSA e BAESURIS nas suas últimas fases.

Porém há poucos dias surgiu um exemplar inédito do Tipo 1 da Série III de IPSES num catálogo de leilões"on-line" da prestigiada casa Pliego. Ele corresponde ao tipo IPS 02.01 de Gomes 1998. 

Trata-se da primeira atestação fotográfica conhecida deste tipo numismático, que justifica esta nota.

A figura seguinte compara o modelo de Gomes com o exemplar de Pliego, acrescentando uma transcrição preliminar deste último.



O exemplar apresenta sinais de grande usura, que eliminaram todas as arestas e acabamentos finos certamente existentes.

A paginação da moeda é a seguinte:

Anverso: Barco com proa à direita (e não à esquerda!) sobre topónimo IPSES dentro de grafila de pontos grossos, idealmente circular.

Reverso: Golfinho em salto à direita sobre arco.


A embarcação

O barco é uma galera muito estilizada com as estruturas da popa e sobretudo da proa muito sobredimensionadas relativamente à extensão do bordo de través, onde se situariam os remos que não são representados.
Estas deformações são típicas da iconografia naval numismática de toda a Antiguidade.

A popa eleva-se e arredonda-se à vante, num estilo bem característico. Originalmente o bordo livre seria mais longo e afilado, tendo desaparecido com a usura.
A figura seguinte ilustra os dois tipos principais de popas em embarcações romanas de casco linear.
O nosso caso corresponde ao tipo da esquerda.



A proa tem um castelo muito sobredimensionado na sua representação. São ainda visíveis duas cintas que corresponderão a duas cobertas do castelo e definem painéis na sua amurada exterior, também num estilo bem característico.

A coberta superior do castelo é suportada à ré por amuradas ou cornijas de bordo arciforme côncavo, num estilo amplamente documentado em fresco, escultura e moedas da República romana. As figuras seguintes exemplificam atestações dos primeiros tipos.




Há vestígios de um esporão mas não de um poste da proa, o que se poderia eventualmente dever ao limite do cunho (o desenho não coube totalmente na área disponível) ou mais provavelmente a um tipo real de embarcação sem poste sobredimensionado, como é o caso de modelos mais tardios do séc. II da nossa Era.

A elucidação pode estar no paralelo numismático mais similar ao modelo em estudo. Trata-se do tipo OSS 08.05 de Gomes 1998, da ceca de OSSONOBA, que representa o mesmo tipo de embarcação na mesma orientação.

Infelizmente este modelo também só é conhecido até hoje através do desenho esquemático de Alberto Gomes, reproduzido na figura seguinte.



O detalhe é no entanto suficiente para se conformar a presença do esporão e a ausência de um poste de proa sobreelevado, assim como da notoriedade volumétrica do castelo da proa.

Este conjunto de características ajusta-se muito bem ao único tipo de navio que possui tais características: uma liburna na sua versão do Alto-Imperial, sem a gaiola da fila superior de remadores.

A figura seguinte representa, segundo esta leitura, o tipo de embarcação real correspondente à imagem da moeda, nas suas proporções verdadeiras.



Há fortes indícios que o modelo de Gomes corresponda ao mesmo cunho do anverso, apesar da diferença no posicionamento relativo das letras do topónimo face ao navio. Sobre o cunho do reverso a identidade não parece ser tão evidente.


O Golfinho

A nova moeda apresenta o golfinho em bastante mau estado, mas com detalhes das barbatanas que enriquecem o modelo de Gomes e sobretudo com vestígios claros de um arco junto ao focinho do animal.

Esta representação de um arco sobre o qual o golfinho se apresenta a saltar já era conhecida doutros tipos de IPSES da série II. É o caso exemplificado na figura seguinte.




Bibliografia

As referências bibliográficas e créditos das imagens serão fornecidas pessoalmente aos interessados.

Casas Abastadas de São Brás de Alportel


SIT TIBI TERRA LEVIS. Mais um projecto local para a necrópole.



Ver texto completo em PDF aqui



o Brás de Alportel possui um número incontável de patrimónios tão numerosos e variados quanto microscópicos. Eles interessam fundamentalmente a grupos geracionais locais e encontram-se sob formas extremamente semelhantes em qualquer outra povoação do mesmo universo cultural.
Sabe-se que uma parte crescente desses “micro-patrimónios o invenções ou reinvenções recentes, ou cópias de sucessos mediáticos na moda, no quadro de uma “eventocracia” de cariz competitivo e mercantilista que tem dominado em crescendo a vida cultural municipal portuguesa nas últimas cadas.
No entanto e acima desses pequenos horizontes e frenesins locais São Brás possui uma riqueza patrimonial edificada invulgar no Algarve, cujo interesse ultrapassa largamente o âmbito concelhio e eventualmente o regional.
Trata-se do conjunto de quintas e casas residenciais rurais abastadas, edificadas na sua grande maioria entre 1890 e 1930, no seguimento do crescimento repentino da indústria corticeira local.
O seu expoente maior é bem conhecido: a sede do Museu do Trajo, situada hoje na área urbana actual, tal como outras. Ele constitui um exemplo excepcional quer na sua dimeno arquitectónica quer na sua formulação erudita e muito moderna para a época. A restante grande maioria das casas é porém igualmente interessante e quiçá mais representativa, por se integrar melhor nos modelos arquitectónicos, funcionais e sociais da sociedade local do seu tempo.
Do ponto de vista de património edificado as casas de o Brás representam a marca sobrevivente mais significativa e espectacular dessa época, que marcou a paisagem construída são-brasense de forma determinante a à cada de 1970 e que ainda hoje se revela de modo singular no meio da metástase suburbana actual.
Um aspecto destacado destas casas é terem servido como estrutura essencial do modelo de gentrificação social da época. Desenvolveram-se primeiro entre as famílias socialmente mais importantes e progressivamente a partir daí para escalas mais modestas. Essa difusão vertical e transversal contribuiu para transformar o seu estilo num marcador de identidade generalizada e comum às classes abastadas e médias dos proprietários concelhios.
Mais do que a sua originalidade arquitectónica, é essa proliferão numérica e a riqueza das suas variantes e simplificões dentro de um estilo comum que tornam estas casas em um verdadeiro ex-líbris local.
A sua relevância patrimonial e cultural decorre de quatro aspectos principais:
 
  • A forte marca arquitectónica do conjunto das casas, caracterizada por residências principais com importantes elementos urbanos estruturais e decorativos, associadas a complexos e espaços agrícolas muito tradicionais na sua ruralidade;
  • O elevado número de exemplares (mais de vinte em todo o concelho, incluindo algumas desaparecidas ou totalmente descaracterizadas);
  • O bom estado de conservação da traça original talvez ainda da maioria;
  • A continuidade da sua memória vivencial ininterrupta desde a sua construção a há pelo menos uns vinte anos atrás, continuando a maioria em ocupação residencial permanente até aos dias de hoje.
As casas de São Brás definem assim um tipo específico de povoamento ou habitat rural próprio de uma época, de uma região e de uma formação social, em que a complexidade e a riqueza da estrutura espacial reflectem a sua adaptação a um modo de vida e a uma hierarquia social que se manteve desde o séc. XIX até meados do XX.
 
Elas ilustram um modelo em que a cultura urbana burguesa provincial se articulou perfeitamente com a economia de proprietários rurais e comerciantes agrícolas abastados e com os hábitos sociais e familiares muito tradicionalistas das classes possidentes do sul nesse período.
 
Neste sentido as casas e as respectivas “fazendas” articulam quatro domínios de estudo principais:
 
1. A parte urbana
A casa principal e os seus anexos, nomeadamente as partes de representação social, de residência propriamente dita e de anexos de serviços e de infra-estruturas domésticas.
Os logradouros e espaços exteriores.
Os usos funcionais dos espaços: usos projectados, comuns e extraordinários.
 
2. A parte rústica
Os usos agrícolas das propriedades. Partição e uso do solo.
As formas de trabalho e destino da produção: abastecimento doméstico e produções excedentárias e específicas para o mercado. Rendas, parcerias e salários em géneros.
A parte frutuária. Celeiros, currais, estrumeiras, pátios de criação, armazéns e despensas.
O espaço dos transportes e dos animais de tiro e montada.
O espaço dos veículos motorizados e alfaias
 
3. A parte industrial
As fábricas e oficinas da indústria corticeira nos recintos das fazendas.
Estudo específico sobre a morfologia edificada, a organização do espaço e as relações sociais, e a economia manufactureira subjacente em termos de: mecanização, emprego, produtividade e especializações tecnológicas e condições de trabalho.
 
4. A parte hidráulica 
A água e os sistemas hidráulicos de abastecimento doméstico e de usos agrícolas e de disposição de águas residuais.
 
É em cada uma destas partes e no seu conjunto que as casas devem ser abordadas, estudadas e conhecidas.

Por outro lado a constituição e expansão deste grupo de casas liga-se indissociavelmente às famílias e à sociedade local que sustentou politica e economicamente a fundação do concelho e que permitiu a sua sobrevivência após o final do ciclo da industrialização rural corticeira.

Esta ligação fortemente estruturante entre casas e famílias, com a sua inevitável evolução ao longo do tempo, constitui um dos aspectos mais interessantes e originais do seu estudo e permite associar o conhecimento do património edificado à história das famílias locais.